Sábado, 7 de Março de 2009

TODAS AS LIBERDADES

Eu quero ter a liberdade de olhar para uma criança e sentir-me dentro dela.

Eu quero ter a liberdade de olhar para um adulto como uma criança.

Eu quero sentir os raios solares acariciarem a minha pele como as crianças sentem.

Eu quero beber a chuva sem preocupações e senti-la me abraçar ternamente, afastando-me do frio da solidão.

Eu quero correr de medo e pensar que o maior medo que vou sentir em toda minha vida, é do escuro.

Eu quero ter pavor de coisas absurdas, como por exemplo, uma simples folha deformada.

Eu quero poder rir de sons absolutamente indecifráveis, tornando-os lindas e alegres melodias.

Eu quero não conseguir me concentrar e ser repreendido pela vida por não fazê-lo.

Eu quero usar o choro como arma para conseguir o que desejo e o silêncio como canto de vitória.

Eu quero fazer birra se não puder comer doce antes do almoço.

Eu quero almoçar sem perceber a comida me alimentar.

Eu quero subir em tudo que puder para experimentar a coragem, sem saber o que é coragem e me dizerem apenas para ter medo.

Eu quero poder correr livre quando meus pais dizem que eu não posso.

Eu quero estar em todos os montes e transformar todas as nuvens eternamente em rostos e em doces.

Eu quero ser inimigo do sono durante o dia e ser o melhor amigo dele durante a noite, mesmo que antes de ser convencido por ele, eu me decida pela inimizade.

E eu quero ser o pai dessa criança, e poder admirá-la enquanto dorme.

E quero ser a mãe que a impede de acordar durante a madrugada com uma voz que a acalenta e conforta.

Eu quero além de tudo ter a liberdade das flores que revelam seu perfume e sua beleza e que não esconde o sorriso quando a percebem.

Eu queria me comportar como o vento que passa pela fresta da janela daquela senhora que não consegue levantar-se para senti-lo além de uma aragem.

Eu quero fazer desenhos abstratos e quero também vê-los como imagens perfeitas.

Eu quero ver na poesia de outros o sentido que desejo dar as minhas.

Eu quero ser a poesia pobre, que enriquece a quem senti-la.

Eu quero morrer para a morte e ser pego de surpresa pela vida, com um sorriso rasteiro no rosto.

Sou o mais cheiroso dos que não tem cheiro algum.

Eu não sou ninguém, eu sou apenas nada. E todas as formas de vida, simpatizam com minhas deformidades, mas, não as comem e nem as bebem, apenas simpatizam.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

CANTO SEM SOM

Cantar com a música do tempo que espreita a vida.

Voar para distante do longe e para perto do vento.

Ser mais palavras do que ações – ser humano.

Ser vivo, ser morto, ser grito.

Ser aquilo que não sabem,

Ser tudo que não é.

Ser esconderijo,

Viver mudo,

Ser nada,

Ser tudo.

Acabou!

Joubert Barbosa

Domingo, 30 de Novembro de 2008

A CASA

Como é linda aquela casa em que moram muitas pessoas.

As pessoas não moram sozinhas nessa casa

Elas mesmas têm casas, elas têm algumas casas dentro de si.

 

As casas podem ser grandes ou pequenas,

Podem ser bonitas ou feias – como tudo na vida.

Mas, nas casas cabem muitas pessoas.

Não só pessoas e mais do que apenas tudo,

As casas absorvem o medo, ganham força, alegria,

As casas podem até não ficar permanentemente de pé,

Podem cair, explodir, afundar... Mas, as casas vivem,

Vivem além da própria vida e se guardam como um pequeno bloco

Que se esconde dentro duma fechadura.

 

O que não há na casa, não tem como ser belo.

O belo fica fora da casa, só até enquanto não é visto por ela.

Quando a casa cresce, torna a rua mais bela, torna o bairro mais belo, vira um País.

Domingo, 16 de Novembro de 2008

ALTURA

Vou subindo molemente a escada da admiração,

Os degraus confessam-se tristes e alegres.

Não sei muito bem quantos passos são necessários para contemplar o que é belo e escondido.

Não sei nem se poderei contemplar a morte da tristeza.

Vou morrer vivendo e viver a além da própria vida.

 

Quando é que o tempo matará aquilo que te mata a cada dia?

Quando é que da vida você beberá a mais doce seiva?

Quando é que seus olhos servirão como espelho para felicidade?

 

O amor é tanto fogo como brisa, é tão vivo quanto alegre

O amor é tão límpido quanto belo... A vida é mais bela que a morte.

Viver de dia, viver à noite e rir de madrugada...

Sonhar que continuo subindo as escadas,

Só que dessa vez com alguém que me faça voar.

 

Salvador, Bahia 16 de Novembro de 2008

J.

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

A ARTE DE RESPIRAR

Como posso respirar pela última vez

Se ainda não respirei a primeira?

Ainda não sou poema, nem livro.

Ainda não sou palavra que não tem medo da interpretação.

Tenho medo!

Me escondo nas prateleiras entre a razão e a emoção.

Permaneço calado, apegado ao silêncio do intervalo entre a passagem de um trem e outro.

Trens que cabem apenas palavras.

Mas que não são trens, nem são nada. 

Joubert Barbosa

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

A PEÇA QUE AINDA QUERO ESCREVER

Uma peça que seja dura nas suas conclusões,
Tão dura quanto maleável.
Somente queria uma peça que servisse para uma pessoa
E que em seguida essa pessoa servisse de exemplo para muitos.
Queria atuar escrevendo,
Queria escrever atuando.
E sendo palavras e não apenas palavras,
Voar tão alto quanto posso imaginar e além do que imagino.
Abram-se as portas,
Abram-se as cortinas,
Abram-se o coração...
Fechem aquela vida,
Abram-se para a próxima
E permitam-se rir,
Não com as atuações das palavras, mas,
Com a atuação da peça que quero viver...

Sábado, 26 de Julho de 2008

MOJA BIEDA

Poema da história do músico polonês Frédéric F. Chopin:

Depois do rompimento com Maria Wodzinsky, ele reúne todas

as cartas dos Wodzinsky e rotula com letras nervosas:

"Moja Bieda".



Toda esperança é infelicidade,

Transcendendo o limite da ambigüidade.

Deixando-me risonho num momento,

Usando este tempo como alento.

Conheço-te no esplendor deste dia.

Olho os teus olhos que refletem alegria.

Pego-me perdido neste teu olhar,

Perco minh’alma, não posso falar.

E depois doutros dias rotos e rubros.

Dias famintos a viver de embuço,

E que pereci em toda minha saúde,

Vivendo em sofrer, sofrendo tem... lúgubres.

Eh, você sempre me embute o querer,

Tentando tanto fazer-me entender,

Que os olhos na distância são teus.

(fazendo-me compor “Valsa do Adeus”)

Distância que é bandida, ingrata.

Aflige-me demais e sempre me mata,

Mata-me, mata-me de tanta dor,

Fazendo-me ver sonhar com teu amor.

II

Todos os meus dias sem você são sonhos,

Sonhos de amor, eterno amar que ponho,

Meu coração perecível infante,

Simplesmente, imensamente constante.

E na tua grandiosa imensa distância

Olho para você e te vejo em ânsia.

Em dor, imensa e funda dor de amor,

Amar amor amar, sofrer – que dor!

Tudo é azul lindo como o céu.

Pereço só por sua presença em véu,

Que o negro vento distancia de mim,

Fazendo-me de novo triste sim.

III

O fogo de outrora se extingue,

Talvez pela distância que um brigue

Não ameniza mesmo como toda lenha

Que existe no meu íntimo e não se empenha.

Vejo aturdido novo céu escuro,

Que insiste em ficar, fica perituro.

Minh’alma, minha vida e badameco,

Certamente se vai em tom de venéfico.

Eu estou bem aqui nesta minha tumba

Vivendo, deixando esta vida imunda.

Clamando para que esqueçam de mim:

- esqueçam-me, deixe-me, este é meu fim.

IV

Corro sempre arfante atrás das palavras,

Que hoje só são lembranças em laudas.

Quando essas penosamente me matam,

São armas que só a mim maltratam.

Todas as lembranças daquilo ou disso,

Eu prefiro jogá-las no infinito.

Talvez para nunca, nunca mais te ver.

Impedir-te de fazer-me sofrer.

V

Rasgo-me em profundo depois de tempos,

Em dor choro-me sem ter acalento.

E dias bem longos a torna aguda,

Vivo sem gente nesta penumbra.

E não sinto nem dor nem tampouco alegria

Pereço sozinho esta vida vazia.

Céus vêm me falando, dizendo um dia,

Que para todo sempre perdi Maria.

Sem esperança para conversar,

Achei uma escritor para me amar.

Mas, amar como se ama de verdade,

Privando-me de sentir qualquer saudade.

Bem curtinha a alegria volta,

Com sorrisos interno que se soltam,

Para deixar-me flutuar mais uma vez,

Fazendo-me, assim, sentir em altivez.

Minha grande agonia afasta meu amor

Deixando-me assim sozinho em clamor.

A solidão novamente me abraça.

Meu tempo, a vida: “Minha desgraça!”.