Eu quero ter a liberdade de olhar para uma criança e sentir-me dentro dela.
Eu quero ter a liberdade de olhar para um adulto como uma criança.
Eu quero sentir os raios solares acariciarem a minha pele como as crianças sentem.
Eu quero beber a chuva sem preocupações e senti-la me abraçar ternamente, afastando-me do frio da solidão.
Eu quero correr de medo e pensar que o maior medo que vou sentir em toda minha vida, é do escuro.
Eu quero ter pavor de coisas absurdas, como por exemplo, uma simples folha deformada.
Eu quero poder rir de sons absolutamente indecifráveis, tornando-os lindas e alegres melodias.
Eu quero não conseguir me concentrar e ser repreendido pela vida por não fazê-lo.
Eu quero usar o choro como arma para conseguir o que desejo e o silêncio como canto de vitória.
Eu quero fazer birra se não puder comer doce antes do almoço.
Eu quero almoçar sem perceber a comida me alimentar.
Eu quero subir em tudo que puder para experimentar a coragem, sem saber o que é coragem e me dizerem apenas para ter medo.
Eu quero poder correr livre quando meus pais dizem que eu não posso.
Eu quero estar em todos os montes e transformar todas as nuvens eternamente em rostos e em doces.
Eu quero ser inimigo do sono durante o dia e ser o melhor amigo dele durante a noite, mesmo que antes de ser convencido por ele, eu me decida pela inimizade.
E eu quero ser o pai dessa criança, e poder admirá-la enquanto dorme.
E quero ser a mãe que a impede de acordar durante a madrugada com uma voz que a acalenta e conforta.
Eu quero além de tudo ter a liberdade das flores que revelam seu perfume e sua beleza e que não esconde o sorriso quando a percebem.
Eu queria me comportar como o vento que passa pela fresta da janela daquela senhora que não consegue levantar-se para senti-lo além de uma aragem.
Eu quero fazer desenhos abstratos e quero também vê-los como imagens perfeitas.
Eu quero ver na poesia de outros o sentido que desejo dar as minhas.
Eu quero ser a poesia pobre, que enriquece a quem senti-la.
Eu quero morrer para a morte e ser pego de surpresa pela vida, com um sorriso rasteiro no rosto.
Sou o mais cheiroso dos que não tem cheiro algum.
